O tempo descarrilado

sexta-feira, 17 de julho de 2009

TRÍPTICO #iii

(by Dino Valls)

Último verso


Aqui, na redoma ventilada, poderemos ver o que me escondeu de ti, ou o tu que a mim se escondeu. Agora uma galáxia de pontos iluminados por astros brilhantes. Ele (pois que não havia dúvidas quanto a seu sexo, por mais que a liberdade da época armasse barricadas para confrontar sua identidade social) mostrou-nos o lado até então oculto de seus estranhos preceptores. Dizem que a má sorte, a desgraça, vem precedida por três longos sinais, como um tríptico, através de três acontecimentos similares e distintos em essência. Mas nada ainda nos é dado saber acerca da verdade. Até que se prove o gosto cru do alimento, perde-se em valores protéicos ou calóricos, porém convenhamos, é melhor ao ponto dito cozido. E assim eles foram, os dois, a navegar mudos pela conhecida beleza comum. E daquela vez eles viram tudo. E gozaram. Ressequidos pelo fogo de flechas-dardos bem lançadas com uma boa pontaria, poderiam encontrar água fresca e fria em algum lugar daquela terra inóspita? Nunca. Percebendo o erro de existirem além dos padrões explícitos na natureza de um povo obscuro, sendo investigados, trancaram-se em um duplo contrato. “Eu te dou a força física para que suportes o mundo que virá a desabar, sem que te falte o ar. Tu me prometes fidelidade e respeito às minhas crenças religiosas mais primitivas”. Firmaram-se, no corte brusco e no sangue que jorrava aos montes pelas camas onde deitavam. Entretanto foram descobertos e massacrados. Sem poderem dizer o quanto prescindiam um do outro, por três vezes investiram na criação e execução de uma nova linguagem que nada havia de peculiar. Era apenas mais uma das formas com as quais o comum se apresenta aos olhos jovens do mundo. Olhos que nada viram. E pés que caminho algum trilharam. Depostos de nossos cargos de amantes à moda antiga, nos resta o perdão de subirmos ao cadafalso.


terça-feira, 14 de julho de 2009

TRÍPTICO #ii

(by Dino Valls)

Penúltimo verso


Com uma melosa lentidão, conseguida através de muito esforço muscular coordenado, ele virou-se e deixou-se levar sem esforços a uma nova posição na qual poderia ser mais fácil encontrar a boca calma e confortável do outro. Sem perceber como fora, de início já recebia e aceitava com resignação os açoites de uma língua potente e ferina que passavam pelos seus lábios secos e atingiam o interior da boca, nocauteando sua língua, ao mesmo tempo em que o amante lhe golpeava o quadril, por trás, com seu forte ataque de mãos, pernas grossas e movimentos precisos, cadenciados, muscularescos. Depois de minutos (ou seriam segundos? Ou quem sabe horas?), estavam frente a frente novamente, a verem-se na cor dos olhos um do outro, a puxarem-se pelo pescoço e enlaçarem-se em curtos e tensos beijos. Ora olhavam os vidros da janela e a claridade que chegava crescente com o dia, ora trocavam olhares angustiados a dizerem-se que o melhor mesmo seria pararem e separarem-se, acabando por deixar, daquela vez, o ato sem a conclusão do gozo. Mas torna-se premente concluir o que faziam, fechar o círculo e assim o fizeram, tocados pela claridade que reprimia o fim. Desfizeram-se do instante de calor em seus corpos perfumados pelo sexo e pelo leve odor do álcool transpirado e nem despedidas houveram. Um deles saiu da casa levando os sapatos nas mãos e o outro ficou, despido como um ídolo amargo, no portão que fechava com cuidado e em silêncio.


segunda-feira, 13 de julho de 2009

TRÍPTICO #i

(by Dino Valls)

Antepenúltimo verso


Procuramos por um tempo indefinível uma forma de expressão lingüística que nos introduza, expresse-nos, dignifique-nos. E eu nunca encontro um signo que te expresse a mim de forma direta e completa. Mas encontrei o inverso, o avesso daquilo que tu és, aquilo que não quero que sejas a mim, pois que você induz-me àquele estado contemplativo e indolente que certas drogas ilícitas tentam imitar um pouco.


sábado, 27 de junho de 2009

o troço pode ser aqui também:


https://twitter.com/Lucius_Kod