Último verso
Aqui, na redoma ventilada, poderemos ver o que me escondeu de ti, ou o tu que a mim se escondeu. Agora uma galáxia de pontos iluminados por astros brilhantes. Ele (pois que não havia dúvidas quanto a seu sexo, por mais que a liberdade da época armasse barricadas para confrontar sua identidade social) mostrou-nos o lado até então oculto de seus estranhos preceptores. Dizem que a má sorte, a desgraça, vem precedida por três longos sinais, como um tríptico, através de três acontecimentos similares e distintos em essência. Mas nada ainda nos é dado saber acerca da verdade. Até que se prove o gosto cru do alimento, perde-se em valores protéicos ou calóricos, porém convenhamos, é melhor ao ponto dito cozido. E assim eles foram, os dois, a navegar mudos pela conhecida beleza comum. E daquela vez eles viram tudo. E gozaram. Ressequidos pelo fogo de flechas-dardos bem lançadas com uma boa pontaria, poderiam encontrar água fresca e fria em algum lugar daquela terra inóspita? Nunca. Percebendo o erro de existirem além dos padrões explícitos na natureza de um povo obscuro, sendo investigados, trancaram-se em um duplo contrato. “Eu te dou a força física para que suportes o mundo que virá a desabar, sem que te falte o ar. Tu me prometes fidelidade e respeito às minhas crenças religiosas mais primitivas”. Firmaram-se, no corte brusco e no sangue que jorrava aos montes pelas camas onde deitavam. Entretanto foram descobertos e massacrados. Sem poderem dizer o quanto prescindiam um do outro, por três vezes investiram na criação e execução de uma nova linguagem que nada havia de peculiar. Era apenas mais uma das formas com as quais o comum se apresenta aos olhos jovens do mundo. Olhos que nada viram. E pés que caminho algum trilharam. Depostos de nossos cargos de amantes à moda antiga, nos resta o perdão de subirmos ao cadafalso.



